Renault voltará a vender 4×4 no Brasil graças a motor elétrico de duas marchas
Sistema inovador francês dispensa cardã e caixa reduzida tradicionais e promete até 183 kgfm com pequeno motor elétrico

Tanto o Renault Boreal, que será lançado no Brasil no segundo semestre, quanto a picape Niagara, que só chega em 2026, terão versões 4×4. A diferença é que não terão o bom e velho cardã atravessando a carroceria de ponta a ponta e a tração nas quatro rodas não afetará o consumo.
A Renault não tem um carro 4×4 no Brasil desde 2020, quando acabou com o Duster 4×4 – a Oroch 4×4 só foi feita para exportação. E com a ajuda de um sistema híbrido diferente seus novos carros 4×4 poderão até ser mais eficientes que as versões convencionais.
O segredo será uma nova tecnologia que está sendo desenvolvida pela também francesa Valeo. Consiste em um eixo traseiro elétrico, comandado por um motor elétrico de 48V e duas marchas.

Chamado de Dual Speed 48V, este sistema permite que o motor elétrico síncrono seja usado tanto para propiciar alguma redução no consumo do carro em condução normal quanto para auxiliar a vencer obstáculos no fora-de-estrada. O que há de diferente é que o motor elétrico terá uma segunda marcha que funcionará como uma caixa reduzida.
Todo motor elétrico usado em um um carro tem uma caixa de redução que desmultiplica suas rotações para garantir força às rodas. O que o sistema da Valeo promete é uma marcha para altas velocidades e outra marcha para baixas velocidades, com maior multiplicação da força do motor elétrico.
Ao mesmo tempo, será possível poupar o peso do cardã, que teria que atravessar o carro, e também da caixa reduzida necessária em sistemas de tração 4×4 convencionais. A instalação do Dual Speed é feita no eixo traseiro do carro, que precisa ter suspensão independente.

O Dual Speed 48V pode ser usado em carros híbridos leves 48V (MHEV), híbrido (HEV) e híbrido plug-in (PHEV), e também pode ser adaptada em carros elétricos. O motor elétrico tem pico de potência de 34 cv e é capaz de gerar 27 cv constantes por até 10 segundos.
Com a multiplicação da marcha mais baixa, seu torque aplicado nas rodas pode chegar ao equivalente a 183 kgfm.
Mas não é só uma questão de força. O motor elétrico é controlável, então o software pode ser usado para adaptar sua entrega de força à relação de marcha em uso e a diferentes necessidades.
Também existe um modo “neutro”, que desconecta o motor elétrico das rodas evitando perda por arrasto do conjunto. Ou seja, ele não “pesará” nas rodas, o que ajuda a não prejudicar o consumo.

A atuação do motor elétrico ainda pode ser usada tanto para corrigir o comportamento do carro nas curvas quanto para regenerar a energia cinética nas desacelerações para recarregar a bateria. Ao mesmo tempo, não obriga que a bateria seja grande.
A estreia do Dual Speed 48V será no Dacia Bigster, o equivalente europeu ao Renault Boreal nacional, cuja versão 4×4 será lançada dentro de um ano, no começo de 2026. Seu motor será o três cilindros 1.2 turbo com sistema híbrido leve 48V.
Novos Renault 4×4 no Brasil

No Brasil, porém, o motor a combustão será o antecessor do três cilindros europeu. O motor 1.3 turbo de 163 cv também terá sistema híbrido híbrido leve e será combinado ao mesmo câmbio DW23, o mesmo automatizado de dupla embreagem e seis marchas usado atualmente pelo Kardian.
Este câmbio de dupla embreagem suporta o torque máximo de 25,5 kgfm. O sistema Dual Speed 48V na traseira será fundamental para elevar o torque máximo deste conjunto.

Vale lembrar que quando a Renault Niagara foi mostrada, no final de 2023, a fabricante já havia adiantado a presença de um sistema híbrido leve com um motor elétrico traseiro extra. A tecnologia, porém, ainda não está pronta.
Caberá ao carro fazer a gestão da bateria (que terá cerca de 0,9 kWh) para garantir que o motor elétrico traseiro tenha energia disponível. Ao mesmo tempo, o motor-gerador (BSG) acoplado ao motor 1.3 turbo poderá gerar energia para o sistema.
Além disso, como o câmbio é de dupla embreagem, seria possível desconectar o motor 1.3 das rodas para usar apenas o motor elétrico traseiro em pequenos deslocamentos. Em seus testes, a Valeo diz ter obtido uma redução no consumo médio na ordem dos 4%, com redução de 7% no ciclo rodoviário.