Opinião: Paraíso e inferno
Quer dirigir por prazer? Encontre uma estrada deserta e evite o trânsito caótico das cidades
Dirigir é um prazer. Interagir com o carro, com a via, sentir o impulso do motor e ver o mundo passar do lado de fora não tem preço. Ter momentos de prazer no trânsito caótico de muitas cidades brasileiras é algo quase impossível, no entanto. O fluxo de carros é carregado e lento. Mas não é apenas isso: alguns motoristas ajudam a tornar as coisas mais difíceis.
Não estou falando de pessoas que por qualquer razão cometem erros. Acontece. Me refiro a motoristas que ignoram princípios de convivência social. Que nunca respeitam distâncias de segurança dos carros à frente, faixas de pedestres, vagas de estacionamento de idosos, gestantes e PcDs; que usam farol alto de forma inapropriada, ligam luzes de neblina só porque escureceu e nunca sinalizam as manobras que pretendem fazer.
Falo de pessoas que usam a buzina e pisca-alerta indiscriminadamente, que dirigem pelo acostamento, se posicionam na faixa errada para entrar e sair das vias principais, não respeitam sinalização horizontal, andam além (ou, caso raro, aquém) dos limites de velocidade, estacionam em fila dupla e fecham os cruzamentos, entre outras infrações.
Eu dirijo muito, quase todos os dias, longas distâncias, e vejo o comportamento desse tipo de condutor. Quando é alguém que nitidamente não conhece as ruas, não tem intimidade com o veículo ou demonstra incapacidade de avaliar as situações, penso: perdoai, Senhor, ele não sabe o que faz. São deslizes sem intenção. É diferente. Mas esses são minoria, pelo menos, durante a semana, no trânsito de São Paulo.
Recebi por estes dias um artigo, enviado por Mauri Oliveira, que é Pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemióticas da PUC-SP, que analisa o trânsito como um produto do comportamento humano. “Parto da ideia de que o engarrafamento não é somente excesso de carros, mas também excesso de impaciências: entre motoristas, pedestres, sistemas inteligentes e projetos urbanos”, diz o autor, que vê nas “impaciências”, as razões dos conflitos nossos de cada dia. “No engarrafamento, o outro não aparece como alguém que compartilha um destino, mas como ameaça ao pequeno avanço conquistado. Um metro à frente vira vitória; uma fechada vira ofensa”, relata.
Durante um tempo, acreditei que se todo motorista vivesse um dia na pele do outro – o motorista de automóvel dirigiria uma moto, em um dia, e um caminhão, no outro. O motorista de caminhão e o motociclista também trocariam de papéis. De modo que todos entendessem as dores uns dos outros – como é difícil frear uma motocicleta, manobrar um caminhão, ou avistar uma moto que se posiciona atrás da coluna traseira direita de um automóvel – os problemas de trânsito acabariam. Mas depois me desiludi, concluindo que, se as pessoas não quiserem mudar de atitude, a experiência de nada adianta.
Lembro do dia em que conversando com o especialista em segurança viária e veicular José Aurelio Ramalho, do ONSV (Observatório Nacional de Segurança Viária), entendi o porquê da minha desilusão. Ramalho me falou do conceito CHA (Conhecimento, Habilidade e Atitude) usado por gestores de RH no desenvolvimento de pessoas. “A maioria da sociedade tem ‘Conhecimento’ sobre as regras, assim como ‘Habilidade’ para executá-las. O que é decisivo para uma ocorrência de trânsito ou não é a ‘Atitude’”, disse o especialista do ONSV.
No final do dia, todos perdem no trânsito: prazer, tempo, paciência, saúde, dinheiro. Mesmo quem pensa que ganhou, como aponta o pesquisador da PUC-SP.







